VAR na Copa 2026: Egito e Inglaterra Escancaram Falta de Critério
A Copa de 2026 Escancarou um Problema: O VAR Está Sendo Usado Além do Que Permite o Protocolo?
A Copa do Mundo de 2026 reacendeu um debate que já é rotina no futebol brasileiro: o VAR continua existindo para corrigir erros claros e óbvios, ou virou uma ferramenta para “re-arbitrar” o jogo em câmera lenta, quadro a quadro?
Dois episódios do Mundial expuseram essa crise de identidade: o gol anulado de Mostafa Ziko, do Egito, contra a Argentina, e a polêmica do cabo da spidercam no gol de empate da Inglaterra contra a Noruega. Nenhum dos dois foi um erro grosseiro de tecnologia — os dois foram problemas de interpretação. E é exatamente esse tipo de intervenção que o torcedor brasileiro reconhece de cor, porque vê a mesma coisa acontecer, rodada após rodada, no Campeonato Brasileiro.
O caso do Egito: até onde o VAR pode “voltar a fita”?
Nas oitavas de final, o Egito perdia a partida depois de estar vencendo por 2 a 0, em uma virada heroica da Argentina que terminou em 3 a 2. Mas o resultado escondeu um detalhe que motivou até uma reclamação oficial da Federação Egípcia à FIFA: o segundo gol egípcio, marcado por Mostafa Ziko ainda no início do segundo tempo, foi anulado depois de uma revisão longa que voltou à origem do lance e encontrou uma suposta falta de Marwan Attia sobre o zagueiro argentino Lisandro Martínez.
Ziko não escondeu a indignação depois do apito final, chegando a dizer publicamente que sentia a arbitragem — comandada pelo francês François Letexier — como injusta com a seleção egípcia. O técnico Hossam Hassan também criticou a condução da partida, e a Federação Egípcia pediu formalmente que a equipe de arbitragem fosse afastada de outros jogos até a apuração do caso.
A FIFA, pelo chefe de arbitragem Pierluigi Collina, saiu em defesa da decisão: segundo ele, a regra é simples e não depende de a falta parecer óbvia a olho nu — “se o árbitro não a viu em campo, o VAR pode intervir” durante a fase de posse de bola no ataque que originou o gol.
Aí mora o ponto central da polêmica. O protocolo da IFAB realmente permite revisar a Attacking Possession Phase (APP), a sequência de jogadas que resulta no gol, em busca de infrações que geraram vantagem direta. O problema é que essa ferramenta foi pensada para pegar um erro flagrante que passou despercebido — não para transformar um contato dividido, que só ganha contorno de falta depois de sucessivas repetições em câmera lenta, em motivo de anulação. É essa diferença entre “corrigir um erro claro” e “caçar uma falta com lupa” que os egípcios contestaram, e que reacendeu a discussão sobre os limites do VAR.
O protocolo é claro sobre como as imagens devem ser usadas
Um detalhe pouco lembrado por quem opera o VAR — e por quem só assiste do sofá — é que o protocolo da IFAB estabelece duas velocidades diferentes para dois tipos de análise.
Velocidade normal: para avaliar situações interpretativas
- a intensidade da disputa;
- a velocidade da jogada;
- a dinâmica do contato entre os jogadores;
- a intenção de jogar a bola.
Câmera lenta: apenas para confirmar fatos objetivos
A câmera lenta (ou super slow motion) tem uma função estrita: confirmar fatos objetivos, como se houve contato físico, qual parte do corpo tocou a bola, quem foi o último a tocar antes de sair de campo, ou se a bola cruzou completamente a linha.
A razão para essa separação é conhecida: a câmera lenta distorce a física do lance. Um desarme que, em tempo real, é apenas uma disputa normal de bola dividida pode parecer uma entrada violenta quando cada movimento é “esticado” no tempo. É basicamente o mesmo argumento usado para questionar o gol anulado do Egito — o contato em disputa normal de bola só virou falta depois de várias repetições em câmera lenta, não porque fosse claro em velocidade real.
O episódio da spidercam: Inglaterra x Noruega
O outro caso que dividiu opiniões no Mundial aconteceu nas quartas de final, no confronto entre Noruega e Inglaterra. Perto do intervalo, um tiro de meta cobrado pelo goleiro norueguês Ørjan Nyland pareceu, nas imagens das transmissões da BBC e da FOX, bater no cabo que sustenta a spidercam sobre o gramado. A sequência seguinte terminou no gol de empate de Jude Bellingham, decisivo para a classificação inglesa, que fechou o jogo em 2 a 1 depois da prorrogação.
Pela Regra 5 das Leis do Jogo, se a bola toca um objeto externo ao campo — como o cabo de uma câmera suspensa —, o árbitro deveria paralisar a partida e reiniciar com bola ao chão. Só que a decisão final não dependeu do olho humano nem da repetição de TV: a FIFA usou o sensor interno da bola, a Connected Ball Technology, que mede o que a entidade chama de “batimento cardíaco da bola” a cada contato. O sensor não registrou nenhum pico de contato quando a bola estava no ar, então não haveria evidência de que ela tocou o fio e mudou de trajetória. Sem esse sinal, nem o árbitro em campo nem o VAR pararam o jogo, e o gol foi validado.
A comissão técnica norueguesa, liderada por Ståle Solbakken, reagiu no calor do momento, convencida de que a bola havia desviado no cabo antes do contra-ataque que terminou no gol. E é aí que mora a segunda camada do problema: mesmo com a explicação técnica da FIFA, o episódio expôs uma falha de comunicação. Quando a TV mostra um ângulo que sugere uma coisa e a decisão final depende de um dado invisível ao torcedor — um sensor dentro da bola que ninguém vê piscar —, a sensação de desconfiança cresce, mesmo quando a tecnologia, no fim das contas, está certa.
O Brasileirão vive esse problema há anos
Se essas duas polêmicas frustraram torcedores em escala global, no Brasil esse tipo de intervenção já virou rotina. No Campeonato Brasileiro, tornou-se normal ver o VAR voltar vários segundos na origem de uma jogada para “garimpar” uma possível infração — muitas vezes um contato lateral leve, que passou despercebido pela arbitragem e pelos próprios jogadores em campo, e que só ganha peso de falta grave depois de repetições sucessivas em câmera lenta.
Na prática, o VAR brasileiro tem operado menos como corretor de “erro claro e óbvio” e mais como um caçador de motivos para anular lances — o que vai na contramão da filosofia original do sistema: mínima interferência, máximo benefício.
A falta de critério: o calcanhar de Aquiles da arbitragem
Talvez a maior frustração de clubes e torcedores não seja nem o erro pontual, mas a ausência de um critério uniforme. Lances de mesma natureza recebem tratamentos completamente diferentes dependendo de quem está na cabine do VAR naquele domingo:
- em um jogo, um toque sutil nas costas é suficiente para anular um gol;
- na rodada seguinte, um lance idêntico sequer é chamado para o monitor.
Essa variação constante passa ao público a péssima impressão de que o protocolo muda de acordo com a camisa, o árbitro escalado ou a pressão do estádio — exatamente o tipo de desconfiança que também apareceu nas reclamações do Egito contra a arbitragem da Copa.
Conclusão: o problema não é o VAR, é a interpretação
Os episódios da Copa de 2026 mostraram que essa crise de identidade da arbitragem de vídeo não é exclusividade do futebol brasileiro — ela chegou ao maior palco do mundo. O desafio não está na precisão das câmeras ou dos sensores, mas na forma como árbitros e equipes de VAR interpretam o texto da regra. Quando a revisão deixa de buscar o “erro claro e óbvio” e passa a re-arbitrar lances subjetivos quadro a quadro, a confiança na ferramenta desmorona — seja em uma oitava de final da Copa do Mundo, seja em uma rodada qualquer do Brasileirão.
O VAR nasceu para eliminar injustiças históricas. Para continuar cumprindo esse papel, ele precisa ser aplicado com critério uniforme, comunicação transparente com o torcedor e, acima de tudo, fidelidade ao espírito do jogo.


